GILBERTO FREYRE: SEXO NA SENZALA

 

Roberto Ventura – USP

 

Com fuxicos danados

E chamegos safados

De mulecas fulôs

Com sinhôs!

Manuel Bandeira, “Casa-Grande & Senzala”

 

Casa-Grande & Senzala causou surpresa e espanto, quando de seu lançamento em 1933, por suas saborosas descrições dos hábitos sexuais dos senhores de engenho, patriarcas muitas vezes chegados a um sado-masoquismo. As negras e mulatas surgiam, em suas páginas, como “areia gulosa”, em que os meninos brancos da classe senhorial davam início à sua precoce depravação, ao mesmo tempo que preservavam a pureza e a integridade das sinhás e sinhazinhas. “A virtude da senhora branca”, escreve Freyre, “apóia-se em grande parte na prostituição da escrava negra”. Tais vícios morais se deviam aos efeitos da monocultura escravista sobre a população brasileira.

Freyre foi um inovador pela importância que atribuiu ao sexo na formação da sociedade e da cultura. O historiador francês Lucien Febvre, no prefácio de 1952 à edição francesa de Casa-Grande & Senzala, já havia se referido com admiração ao importante lugar que a questão sexual ocupava no livro. O sociólogo se inspirou nos estudos psicanalíticos de Sigmund Freud, psicológicos de Havelock Ellis e antropológicos de Bronislaw Malinowski e Margaret Mead, sua colega nos tempos de estudante na Universidade de Colúmbia. Tal dimensão erótica e afetiva da cultura se deve ainda, segundo Enrique Larreta, um de seus biógrafos, em artigo na Folha de S. Paulo de 12 de março de 2000, à influência de ensaístas lidos na juventude, como Walter Pater, e dos esteticistas do final do século XIX, Nietzsche, Simmel, George Moore e Huysmans.

Casa-Grande & Senzala pode ser lido como uma autobiografia sexual, em que Freyre dá compreensão histórica ao seu entusiasmo pelas mulatas, procuradas, segundo ele, “pelos que desejam colher do amor físico os extremos de gozo”. Sua predileção pelas mulatas se ancoraria no gosto imemorial dos colonizadores portugueses pela “mulher de cor”, desde os tempos do cativeiro árabe na Península Ibérica até o latifúndio escravocrata nas plantações brasileiras, segundo o velho ditado: “Branca para casar, mulata para foder, negra para trabalhar”. Ou, como dizia um senhor de engenho, citado por Freyre: “Botina e mulher só pretas”.

Freyre racionaliza, em Casa-Grande & Senzala, seu gosto pelas mulatas, que revelou nas recordações de Tempo Morto e Outros Tempos, ou na entrevista que deu à revista Playboy em março de 1980, em que confessou sua fixação pela mulher morena e o encantamento com a atriz Sônia Braga, que viveria no cinema e na TV os papéis da Tieta e da Gabriela de Jorge Amado. Fala, em suas memórias, do apetite sexual pelas mulatas ternas e dengosas, sempre de posição social inferior. Tem aos 17 anos as primeiras relações com A., “diabo de mulatinha”, virgem e adolescente como ele, que o introduz ao sexo anal e o inicia em mulher de uma forma “oblíqua”, mas “singularmente deleitosa”. Conta ainda a relação que manteve no Recife por muitos anos com “a melhor das mulatas do Recife”, “um monumento no gênero”, que lhe fora recomendada pelo tio.

Freyre revelou ainda, na entrevista à Playboy, ter fumado maconha, que aprendeu a tragar com os pescadores alagoanos, e ter tido aos 20 anos algumas poucas e insatisfatórias aventuras homossexuais na Europa. Refere-se, de modo velado, ao seu namoro com Esme Howard Junior, presidente do Oxford Spanish Club, que reunia admiradores da cultura hispânica. Descrito por Freyre como “o mais rosado e belo dos adolescentes de Oxford”, Esme era filho do embaixador inglês na Espanha, Lord Howard. Alude ainda à sua curiosidade pelos belos rapazes de Berlim, que se prostituíam devido à fome e à miséria que se abatera na Alemanha entre a primeira e a segunda guerras mundiais.

O filósofo francês Michel Foucault comentou, na História da Sexualidade, que a confissão é um ritual que purifica o sujeito, que se torna digno de salvação pelo perdão de suas faltas. Freyre conta, em suas memórias, como a educação protestante no Colégio Americano, no Recife, seguida de sua breve conversão à Igreja batista, fez com que a “consciência do pecado” o perseguisse por toda vida: “Como me esquecer dessa leitura da Bíblia e desses hinos?” Espécie de “Nossa formação”, que remete a Minha Formação, de Joaquim Nabuco, Casa-Grande & Senzala se converte em autobiografia sexual, em que o notável apetite priápico de seu autor ganha dimensões histórico-sociais.

Freyre faz portanto, em Casa-Grande & Senzala, uma espécie de auto-análise, ao mostrar como sua fixação nas mulheres “de cor” constituía uma autêntica predileção nacional, já que, desde os tempos da colônia, os colonos manifestavam uma “preferência quase mórbida pelas negras e mulatas”. A marca da influência negra sobre o homem brasileiro se estenderia assim da mesa à cama, da cozinha ao sexo, “da escrava ou mucama que nos embalou [e] que nos deu de mamar” à mulata “que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem”. Até os padres e frades mergulhavam fundo neste “grande atoleiro de carne”, composto de índias desnudas e de negras cativas, praticando o “livre arregaçar de batinas para o desempenho de funções quase patriarcais” de multiplicação da espécie.

Tais relações sado-masoquistas de prazer e dominação tiveram seus efeitos não apenas na privacidade doméstica e na intimidade sexual, mas também na ordem social e política. O autoritarismo da sociedade e da política brasileiras teria, para Freyre, razões de ordem cultural, já que o sadismo, aprendido e praticado na relação com os cativos e dependentes, se transformaria em “simples e puro gosto de mando, característico de todo brasileiro nascido ou criado em casa-grande de engenho”. Já os situados nos níveis inferiores da hierarquia social e sexual acabariam por tomar o “gosto [masoquista] pela dominação”. Chega a afirmar, em Casa-Grande & Senzala, que “no íntimo, o que o grosso do que se pode chamar ‘povo brasileiro’ ainda goza é a pressão sobre ele de um governo másculo e corajosamente autocrático”! A vida política brasileira se equilibraria portanto entre duas místicas: de um lado, a ordem e a autoridade, decorrentes da tradição patriarcal, e de outro, a liberdade e a democracia, bases da sociedade moderna.

 

O escritor-sociólogo

 

Freyre foi mais escritor do que sociólogo, ainda que recorresse aos métodos de investigação social aprendidos com o antropólogo Franz Boas na Universidade de Colúmbia, nos E.U.A., onde fez mestrado em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais de 1920 a 1922, e no breve período que passou por Oxford, na Inglaterra. Procurou criar uma escrita própria, mais artística do que científica, em que as idéias e os assuntos se emendam em um contínuo, com uma aparente falta de plano que evoca a livre associação de idéias do romance psicológico.

Sua preocupação com a escrita e o vivo interesse pela literatura o levaram a escrever perfis de autores, como José de Alencar e Euclides da Cunha, e a se debruçar sobre os hábitos de leitura no Império e na República. Escreveu ainda poemas, reunidos em Talvez Poesia (1962), e duas obras ficcionais, Dona Sinhá e o Filho Padre (1964) e O Outro Amor do Dr. Paulo (1977).

Antonio Candido comentou, em “Gilberto Freyre, crítico literário”, ensaio de 1962, a fecunda diversidade do pluralismo do sociólogo, que, tomado pelo pavor de parecer técnico ou acadêmico, atacava vorazmente a realidade, disposto a esclarecê-la e mesmo transfigurá-la a qualquer preço: “quando saímos à busca do sociólogo, deslizamos para o escritor; e quando procuramos o escritor, damos com o sociólogo”.

Freyre se inspirou em obras literárias, como os romances históricos dos irmãos Goncourt, que consideravam a história íntima de um povo como o “verdadeiro romance”. Observou, em Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX, sua dissertação de mestrado de 1922, que pretendia reconstituir os “aspectos menos ostensivamente públicos e menos brilhantemente oficiais [...] do viver em família – inclusive o quase secreto viver das alcovas, das cozinhas”.

Leu com paixão as autobiografias de Santo Agostinho e do teólogo John Newman. Baseou-se ainda na ficção memorialista de Marcel Proust, de Em Busca do Tempo Perdido, cujo narrador recria, em No Caminho de Swann, os tempos de menino na casa da tia-avó, evocados pelo gosto da “madeleine” embebida no chá. O antropólogo Roger Bastide chegou a chamar Freyre de Proust da sociologia. O próprio sociólogo dizia fazer uma espécie de “sociologia proustiana”, entendida como a “interpretação do que de mais íntimo se possa encontrar no passado de uma sociedade”.

A trilogia de ensaios histórico-sociais, que inclui Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos (1936) e Ordem e Progresso (1959), abarca a formação e a dissolução da família patriarcal brasileira em uma narração cíclica, cujos temas e personagens surgem e ressurgem, de modo semelhante às grandes obras romanescas, como A Comédia Humana, de Balzac, ou o ciclo dos Rougon-Macquart, de Émile Zola. Tais romancistas franceses procuraram captar, de modo semelhante aos historiadores sociais, a interação, ao longo do tempo, entre o indivíduo e a sociedade.

Ao escrever o prefácio para Minha Formação (1900), livro de memórias do líder abolicionista Joaquim Nabuco, cujo interesse pelo escravo viera da infância passada no engenho familiar, Freyre observou que o autor “descobriu-se somente pela metade”: “Conservou para si mesmo, ou dentro de si mesmo, a outra metade do todo semi-revelado”. A autobiografia de Nabuco seria assim parcial, por esconder seus excessos de reformador social ou revolucionário político, que lutara quando jovem contra os interesses de sua própria casta, a elite de brancos e de quase brancos do Império agrário.

A obra ensaística de Freyre tem uma inflexão autobiográfica tão velada quanto a de Nabuco. Muitas das motivações pessoais e sexuais de seu enfoque histórico-social se iluminam com a leitura de suas memórias em Tempo Morto e Outros Tempos. Por sua vez, os aspectos mais encobertos de sua autobiografia, sobretudo aquilo que chamaria de seu “homossexualismo transitório”, se desdobram nos personagens gay de suas novelas, o filho padre de Dona Sinhá e o Dr. Paulo.

Freyre inovou em objeto, método e estilo. Ao invés de seguir a ordenação cronológica das histórias tradicionais, ou de adotar os períodos delimitados pelos feitos do Estado ou da Igreja, investigou a família patriarcal, gerada à sombra do latifúndio e da escravidão. Usou fontes pouco convencionais, como os arquivos e as cartas de família, os inventários e os testamentos, os livros de assento e as atas das câmaras, os livros de ordens régias e as visitações do Santo Ofício, teses médicas, relatórios oficiais e estatutos de colégios, coleções de jornais, almanaques e revistas, diários e livros de viagem, que reuniu com enorme voracidade documental.

Para dar conta do impacto provocado pela abolição dos escravos e pela proclamação da República, recolheu, de forma pioneira, testemunhos de seus familiares e de pessoas idosas que viveram à época de tais acontecimentos, antecipando os métodos da chamada história oral. O belo desenho de Cícero Dias, com as minúcias do dia-a-dia do Engenho Noruega, em Pernambuco, que serve de portal a Casa-Grande & Senzala, mostra a intenção do escritor de reconstruir, em termos plásticos e de forma pormenorizada, os hábitos e estilos do passado, praticando aquilo que o historiador italiano Carlo Ginzburg define hoje como micro-história.

            Abordou a intimidade familiar e o cotidiano doméstico nos tempos coloniais, destacando o papel da mulher, da criança e do escravo, “novos objetos” da história, com um foco semelhante ao que seria adotado pela escola dos Annales na França. Escreveu uma história íntima da vida doméstica da família patriarcal brasileira, em que resgata o cotidiano miúdo, como a arquitetura das casas, as tradições culinárias, as práticas sexuais, os jogos infantis, as roupas e vestimentas.

Sua escrita traz marcas orais, que o aproximam dos autores modernistas. Tomou a linguagem popular tanto como objeto, com inúmeras referências a cantigas, orações, poemas, ditados e provérbios, mas sobretudo enquanto modelo de um estilo distendido, em que as palavras fluem com grande ritmo e sonoridade, em um tom de quase conversa, que abole a distância entre o oral e o escrito, entre o popular e o erudito. Procurou evitar o estilo oratório e retórico, com a linguagem elevada e eloqüente que foi, segundo ele, o grande mal de escritores como Euclides da Cunha e Rui Barbosa, escravos às vezes das palavras e sobretudo dos adjetivos.

O estilo distendido de Freyre mimetiza a arquitetura horizontal e esparramada das casas-grandes coloniais e dos sobrados do Império, de que tanto gostava. Imita ainda seu personagem central, o mestiço ou o híbrido de raça e cultura, ao optar por uma escrita mesclada e sincrética, tanto na combinação de métodos e enfoques, quanto nos níveis de linguagem, que oscila entre o formal e o informal, entre o demonstrativo e o obsceno.

Com uma notável capacidade de dar sabor àquilo que relata, transforma D. Pedro II, o monarca do Segundo Reinado brasileiro, no Pedro Banana, a partir de uma expressão jocosa da época. O senador Tomás Nabuco de Araújo, pai de Joaquim Nabuco, que o retratou de forma magistral em Um Estadista do Império (1897-8), se torna o João Pobre, que teria melhorado de vida, ao se casar com uma moça rica. Os próprios antepassados de Freyre, os aristocráticos Wanderley, corruptela brasileira do sobrenome do fidalgo holandês Gaspar van der Lei, que se uniu por casamento aos Mello de Pernambuco, aparecem como loucos por cachaça e por mulher negra, segundo o dito popular de que não há Wanderley que não beba, Albuquerque que não minta, ou Cavalcanti que não deva...

Freyre seduz e envolve o leitor como uma Xerazade tropical ou uma fogosa mulata. Em um relato aparentemente despretencioso, encobre a exposição autoritária de idéias discutíveis sobre o processo de democratização social, que teria levado à ascensão do mestiço e do bacharel, capazes de desafiar o poder e a autoridade do patriarca. E não conclui, nunca conclui, como observou à época o crítico João Ribeiro, que apontara este traço do ensaísta, que preferia sugerir a afirmar.

Esse caráter não-conclusivo de sua escrita o liga à tradição dos ensaístas europeus, que tanto leu na juventude, como os franceses Pascal e Montaigne, ou os ingleses Francis Bacon, Walter Pater e Arnold Bennett, em que o traço provisório e cíclico da argumentação se relaciona à incessante busca de novos viés interpretativos a partir de detalhes insignificantes ou de pormenores do cotidiano. Foi ainda um discípulo confesso dos ensaístas espanhóis, Ganivet, Unamuno, Baroja, Ortega y Gasset, e dos místicos espanhóis San Juan de la Cruz e Santa Teresa de Ávila. Mas se inseriu também na tradição de ensaístas brasileiros, como Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Manoel Bomfim, que foi continuada por Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, que pensaram, como ele, ainda que de outra forma, os dilemas do país.

 

De reacionário a inovador

 

A surpreendente trajetória política de Freyre, que evoluiu da esquerda democrática nos 30 e 40 para a direita autoritária nas décadas de 60 e 70, tem raízes no conservadorismo saudosista e aristocrático de sua obra, apesar do seu grau de inovação em termos de método, objeto e estilo. O método cultural de Freyre contém portanto o ovo da serpente: o reacionarismo exacerbado que ostentaria publicamente no fim da vida.

Freyre concebeu, de forma idílica e harmônica, as relações entre senhores e escravos, centradas na autoridade benevolente dos patriarcas e no amolecimento trazido pela miscigenação, capaz de gerar uma sociedade que favoreceria a mobilidade social dos negros e mestiços. Tal idéia sofreu duras críticas por parte dos sociólogos da Universidade de São Paulo, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni, que denunciaram o caráter mercantil e violento das relações sociais sob o cativeiro e criticaram a tese da democracia racial, segundo a qual não haveria preconceitos contra negros no Brasil. Florestan Fernandes mostrou, em A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964), que o país nutria um forte preconceito racial e que, ao invés de democracia, havia dominação de raça e de classe e um alto grau de assimetria e desigualdade na estrutura social e econômica.

O historiador marxista Jacob Gorender também criticou Freyre, em O Escravismo Colonial (1978), por generalizar as características da escravidão doméstica, tomada como modelo geral, em que as relações entre senhores e escravos eram mais pessoais e brandas. Freyre idealizou as duras condições de trabalho dos cativos nas plantações de café e cana-de-açúcar, com jornadas de até 14 horas e curtíssima expectativa de vida. Os senhores dos engenhos e fazendas gastavam os escravos, por ser uma mão-de-obra de reposição fácil e barata pelo menos até 1850, enquanto se manteve aberta a porta do tráfico negreiro.

Gilberto Freyre começou porém a ser recuperado a partir dos anos 80 como um dos precursores da “nova história”, pregada e praticada na França a partir da década de 1960 pelos herdeiros da escola dos Annales. Historiadores franceses, como Fernand Braudel, se voltaram para a história da cultura material, enquanto Georges Duby e Philippe Ariès ampliavam a história da família para incluir a vida privada, o amor, a sexualidade, o corpo e as mulheres. Tais tópicos haviam sido discutidos três décadas antes por Freyre em seus estudos sobre o Brasil colonial.

Freyre foi portanto o antecipador das histórias da vida privada tão em voga a partir de G. Duby e P. Ariès, organizadores da obra coletiva, História da Vida Privada, que deu origem à coleção dirigida por Fernando Novais, História da Vida Privada no Brasil. É tido também como pioneiro no interesse pela arquitetura e pelas mudanças nas habitações como expressões de variações na cultura e também no destaque que dava à alimentação e às tradições culinárias. Tinha sido ridicularizado, nos anos 30, ao escrever sobre os enfeites dos papéis de bolo e a disposição dos tabuleiros das quituteiras, e ao publicar Açúcar, com as receitas de seus doces e sorvetes preferidos.

Com um pé na cozinha e um olhar guloso sobre os prazeres afro-brasileiros, Freyre viu a senzala do ponto de vista da casa-grande, mirou o canavial da perspectiva do alpendre. No poema “O Alpendre e o Canavial”, João Cabral de Melo Neto, seu primo, escreveu que do alpendre “o tempo ali pode mesmo/ ser sentido literalmente,/ e até como sabor e cheiro”. Este tempo físico e palpável se torna, para João Cabral, ainda mais material do que a própria matéria e se converte em “coisa capaz de linguagem”, que expressa as próprias formas:

 

O tempo então é mais que coisa:

é coisa capaz de linguagem,

e que ao passar vai expressando

as formas que tem de passar-se.

 

Com uma linguagem criativa e inovadora, métodos de pesquisa pouco ortodoxos e idéias anti-racistas que desafiaram os preconceitos da época, Casa-Grande & Senzala é um grande ensaio de interpretação do Brasil. Trata-se, para Darcy Ribeiro, do maior livro já escrito no país e da única obra brasileira de importância, junto com Os Sertões de Euclides da Cunha. As inúmeras contradições da obra e de seu autor são também as da elite e do povo, cujo dualismo entre ordem e liberdade, entre autoridade e democracia, o escritor-sociólogo procurou retratar.

 

 

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